Menina Vilaça de apelido, Luísa, assim se chamava a bela loura de cerca de vinte anos, vivia com sua mãe, igualmente bela mas de cabelo preto e anelado, numa casa cuja vidraça tinha uma cortina de cassa bordada.
Luísa, tinha pele branca e ao mesmo tempo rosada fazendo lembrar velhas porcelanas; ar fresco e fino, como se se tratasse de uma medalha antiga (diriam velhos poetas pitorescos); conjunto de “virtudes” que chamavam a atenção de qualquer rapaz da época.
Esta bela loura que só gostava de usar coisas finas a condizer com o seu ar, escondia atrás de toda essa aparência, algo que só mais tarde, aquele por quem se apaixonou viria a descobrir.
Pois é, foi assim que o otário do Macário caiu que nem um patinho e quase se “enforcou”, coitado. Também, quem não cairia? Ver uma bela loura encostada ao peitoril da varanda, com um vestido de cassa com pintas azuis, de lenço de cambraia trespassado sobre o peito, as mangas pendidas com rendas, de leque na mão pequena, meiga e amorosa, com unhas polidas como marfim… Bem, a questão do leque deixou o pobre do rapaz intrigado e ao mesmo tempo curioso!
É que o leque era muito rico e fino! Era uma ventarola chinesa, redonda, de seda branca com dragões escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e trémula como uma penugem, e o cabo de marfim, donde pendiam duas borlas de fio de ouro com incrustações de nácar à maneira persa! Um leque desses, maravilhoso, naquele tempo não era para qualquer uma!
Foi assim que a bela loura chamou a atenção do rapaz otário, desculpem, Macário. Mas ela também reparou nele, a safada! E como o tinha já debaixo de olho, vai com a mãe fazer compras. Mas sem dinheiro, claro! Ainda por cima comprar casimiras pretas! Estão a ver a fisgada, não estão? Vão ao armazém comprar um tecido que não vai ser útil, só para ela o ver de perto, falar com ele. Possivelmente já devia saber quem era ele! Ela era loura, mas não era burra! Com aquele ar simples, indiferente…hum… está-se mesmo a ver o que ela queria! Fisgá-lo, lógico!
Coitado do Macário! Ficou louquinho por ela; tão louco que se zangou com o tio por causa da loura! Mas ainda bem que não casou com ela! Porque, vejam lá! num dia em que ele a leva às compras para o casamento, enquanto a mãe escolhe o tecido para o vestido, ela, como quem não quer a coisa, leva-o para a ourivesaria. Ele aproveitou para comprar-lhe um anel de noivado. Mas ela que já tinha pensado na marosca, ia examinando as montras de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de camafeus, os anéis de armas, as finas alianças frágeis como o amor (amor, pois sim!).
A safada, enquanto o caixeiro mostrava anéis a Macário, ia experimentando, dizendo que não a uns e outros, porque uns eram grandes, outros pequenos, outros ainda eram feios. No meio da confusão, mas debaixo do olho do caixeiro (ele não era parvo), com a mão de cera, com veias docemente azuladas e dedos finos e amorosos (aproveitou-se disso!), toca de tirar um anel e escondeu-o. Mas como o caixeiro era de Olhão, reparou e não deixou que saíssem da loja sem que o pagassem. Claro, eu faria o mesmo! Só assim o Macário ficou a saber quem era a noivinha, ou seja, uma ladra. Era assim que ela conseguia as coisas caras.

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