
Nasci na Vila de Ambriz, em Angola, em Março de 1956. Aos 10 meses os meus pais foram para Luanda, onde vivi até aos 19 anos.
Fui baptizada com 5 anos numa igreja muito bonita: Igreja Nossa Senhora da Nazaré, no dia 10 de Maio.
Com 6 anos entrei para a escola.
Quando tinha 8 anos, a caminho da Vila de Caxito, onde o meu pai trabalhava como gerente duma firma (e onde eu e os meus irmãos passávamos férias), os meus pais tiveram um acidente que quase lhes tirou a vida. Nesse acidente a minha mãe perdeu o antebraço e quase perdeu a vista.
Completei o ensino primário com 9 anos. Nesse ano lectivo fiz a 1.ª comunhão na Igreja da Sagrada Família, com um vestido que já não pôde ser feito pela minha mãe pelos motivos já referidos.
Entrei para o 1.º ciclo com 9 anos e aí começou a minha derradeira caminhada nos estudos, pois cada ano escolar era feito
Mas, infelizmente para mim, deu-se a Revolução de Abril. O que para mim estava a começar a ser a sério e bonito, de repente... Foi como se estivesse a meio duma construção com peças de dominó e com um simples gesto viesse abaixo tudo o que já tinha construído.
Tivemos que deixar a casa – construída com muito sacrifício 50 anos depois de o meu pai ter ido para Angola – pois o meu pai esteve à morte por ter sido atacado perto de casa, e um ano depois viemos para Portugal.
Vi-me num país estranho e com os meus pais a viver com dificuldades, o interesse pelos estudos era nenhum, para além de não ter encontrado também quem me indicasse uma escola para que eu pudesse continuar a estudar.
Por volta de 1977/78 surgiu uma oportunidade de trabalho; numa pastelaria no Terminal do Rossio – Pastelaria Kinaxixe. Como iria trabalhar por turnos e com receio que algo acontecesse à única filha que nunca saiu de casa a não ser para estudar, e embora tivesse já 21 anos, foi com muito custo que o meu pai deu autorização para trabalhar. Foi o meu 1.º emprego. Uma boa experiência para começo de vida, por lidar com o público. Trabalhei 2 anos, ao fim dos quais me despedi, porque infelizmente sou um bocado temperamental e não aceito determinadas coisas. Entretanto o meu pai ofereceu-me o curso de dactilografia. Depois, através de um anúncio de jornal, arranjei trabalho numa Escola de Dactilografia onde exercia as funções de dactilógrafa, porque a Escola também recebia trabalhos para serem dactilografados.
Em Junho de 1981 conheci o meu companheiro e mais uma vez a minha vida tomou outro rumo. Juntos os trapinhos, poucos meses depois vi o meu sonho de ser mãe a começar a concretizar-se.
Quando tinha 8 meses de gravidez, o meu marido foi trabalhar para o Sudão, como chefe de armazéns duma fábrica de açúcar – Kenana Sugar & Co. – e por isso não assistiu o nascimento da nossa filha mais velha. Fomos ter com ele, tinha ela 5 meses. Vivi momentos muito bons e felizes durante os 6 meses que lá estivemos – eu e filha. Vivíamos numa zona quase desértica, em que só havia vegetação graças aos sistemas de canalização feitos para que houvesse um modo de a fábrica funcionar e as condições mínimas de vida dos funcionários (que na maioria eram cooperantes de diversos países). Apesar de a fábrica ser a 3.ª maior do mundo – na altura era, e com isso trazia uma das riquezas do país: o açúcar – o povo continuava a ser pobre.
O povo sudanês é um povo muito ligado às tradições. A mulher continua a ser muito subjugada, embora haja mulheres que conseguem atingir os seus objectivos evoluindo profissionalmente, ainda assim com muitas limitações. Na classe mais baixa, a chamada classe pobre, a mulher é limitada à casa e ao cultivo ou outros trabalhos mais forçados. Na zona onde estive, não se via uma mulher a trabalhar em casas particulares, isso era para o homem.
Findo o contrato, regressámos a Portugal.
Em finais de 1985 o meu marido foi outra vez para fora. Desta vez para Maputo, Moçambique, trabalhar como monitor numa firma portuguesa – Entreposto.
Moçambique, terra boa, de povo acolhedor, humilde, com atitudes e maneiras bem tradicionais, muito próprias! Povo alegre; podemos comparar um pouco com o povo brasileiro; podem ter pouco que comer, mas havendo música, fazem uma festa (um dos pontos que comoveu o já falecido Papa João Paulo II aquando da sua visita a Moçambique). Alguns meses depois de estar em Maputo, engravidei da minha filha mais nova. Como não estava a passar bem nos primeiros meses, receoso que algo corresse mal devido à falta de condições de uma maneira geral no sector hospitalar, o meu marido mandou-me para Portugal. Aqui estive até a minha filha completar os 3 meses de idade, altura em que regresso a Moçambique. Pouco tempo depois o meu marido foi transferido para o norte – Cidade de Nampula. Mais uma terra para conhecer, com muitas dificuldades, muita falta de água e cortes diários de energia, mas com o tempo, a adaptação foi boa; fiz boas amizades. Dois anos depois, regressámos a Maputo porque era altura da filha mais velha entrar para a escola e só aí é que havia escola portuguesa. Foi mais ou menos nessa altura que através do meu marido, entrei para a Doutrina Espírita. Mais dois anos e voltámos para Portugal e para ficar. Com tristeza deixei para trás amizades e aquela terra de bom clima e de povo humilde para onde voltaria hoje mesmo se fosse possível.
Pouco tempo depois, as dificuldades surgiram. Sem trabalho, com duas filhas para criar, uma delas na escola... Por indicação duma pessoa amiga fui inscrever-me na Cablesa – fábrica de cablagem de automóvel – onde trabalhei a soldar terminais nos fios eléctricos, durante 6 meses. Ao fim desse tempo, recebi a carta de despedimento. Foi uma experiência muito boa, que me permitiu compreender o trabalho de fábrica. Durante 1 ano e meio estive a receber do desemprego e a cuidar das filhas auxiliando-as nos trabalhos escolares. Quando o desemprego acabou e como o ordenado do meu marido era baixo, através do padre da paróquia de Mira Sintra, comecei a trabalhar a horas numa casa particular. Depois arranjaram-me mais três casas. Entretanto surgiu-me a oportunidade de trabalho na escola, onde estou até agora exercendo as funções de Auxiliar de Acção Educativa, mantendo uma das casas só para ir passar a ferro.
Trabalhar como auxiliar numa escola, é algo que nos enriquece; passamos a conhecer o mundo do outro lado do estudante. O lado que enquanto estudante eu não conhecia. No meu tempo, encontrávamos as salas limpas, mas quase não víamos (eu pelo menos) o pessoal auxiliar. É também conhecermos um pouco melhor aquele lado ao qual não tínhamos acesso, que é o lado dos professores. Lidamos mais directamente com eles, ganhando muitas vezes amizade com alguns. É saber lidar com os alunos, ficar a conhecer o verso da medalha. É ficar a conhecer, muitas vezes, os problemas pelos quais muitos dos alunos passam em casa; começarmos a compreender um pouco o porquê das dificuldades que muitos alunos têm na aprendizagem, no lidar e no conviver com os outros, no relacionamento com os colegas e até mesmo com os professores e auxiliares.
Gostei muito, aprendi alguma coisa, conheci gente nova, tive a oportunidade de fazer um pequeno aprofundamento de TIC, o que me foi muito útil para que eu pudesse passar os meus trabalhos a computador.
Durante estes anos de trabalho nesta escola, tenho feito algumas acções de formação, como por exemplo: Escola Promotora de Saúde, Higiene, Segurança e Saúde nas Escolas, Comunicação e Relações Interpessoais, Curso de Computadores: Iniciação, Aprofundamento e Internet.
Ao fim de 10 anos a trabalhar na que é hoje a sede do agrupamento D. Domingos Jardo, fui posta a trabalhar numa das escolas do 1.º ciclo que a ele estão agregadas: a EB1 da Baratã. É uma escola pequenina, com uma única turma de alunos dos quatro anos lectivos, apesar de estar no meio de habitações grandes e quintas, é uma escola isolada, muito fria no Inverno devido a tanto arvoredo que tem à volta.
No início foi-me muito difícil adaptar-me à mudança. Habituada ao movimento duma escola grande, a ter colegas com quem conversar à hora do almoço, a ter uma colega com quem desabafar um ou outro problema, de repente vi-me sozinha, sem ninguém com quem falar a não ser a professora. Com o tempo, fui-me habituando e embora ainda me custe ir para aquele fim do mundo (como eu costumo dizer), já estou mais ambientada, tenho um bom relacionamento com a professora e com os meninos. Meninos muito diferentes dos da outra escola; com muito mais problemas em todos os aspectos. Não fosse a força de vontade da professora e o interesse por eles, muitos não iam à escola.
Em 2007, através de uma colega muito querida, soube destes Cursos EFA. Inscrevi-me, e aqui estou a tentar fazer o meu 12.º ano. Tem sido uma experiência muito boa; a turma não poderia ser melhor; parece que foi escolhida a dedo; os professores também. Tenho tido algumas dificuldades, mas com um pouco de ajuda deste ou daquele colega, dos professores, da professora com quem trabalho e das minhas filhas, vou conseguindo ir

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