Bocage
Manuel Maria Barbosa du Bocage, nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765.
Filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa (também ele poeta), nascido em Setúbal em 1728, juiz de fora (cargo que exercia durante o terramoto de 1755). Em 1765, foi nomeado ouvidor em Beja. Acusado de ter desviado a “décima” enquanto ouvidor, possivelmente uma armadilha para o prejudicar visto ser próximo de pessoas que foram vítimas em Pombal, foi para o Limoeiro preso em 1771, nunca chegando a fazer defesa das suas acusações. Com a morte do rei D. José em 1777, dá-se “viragem” que lhe valeu a liberdade, voltando para Setúbal onde foi advogado. Sua mãe D. Mariana Joaquina Xavier l’Hedois Lustoff du Bocage, cujo pai era francês, era segunda sobrinha da célebre poetisa francesa, madame Marie Anne Le Page du Bocage.
A sua infância foi infeliz. Para além da prisão do pai quando ele tinha seis anos, durante seis anos, a sua mãe faleceu quando ele tinha dez anos.
Possivelmente ferido por um amor não correspondido, assentou praça como voluntário em 22 de Setembro de 1781, permanecendo no exército até 15 de Setembro de 1783 altura em que se alistou na marinha de guerra, embarcando para a Índia três anos depois. Viveu em Goa, Damão e Macau. Foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, ainda assim, foi nomeado guarda-marinha por D. Maria I.
Apesar das biografias publicadas após a sua morte, boa parte da sua vida permanece um mistério. Não se sabe ao certo os seus estudos, embora se deduza pela sua obra, que tenha estudado os clássicos e as mitologias grega e latina e que estudou francês e latim.
Bocage foi um dos primeiros a anunciar a modernidade em Portugal, pelos conflitos que dão força e contundência a seu estilo poético. No seu regresso a Lisboa (1790), apaixonou-se pela mulher do irmão e entregou-se à boémia, escrevendo versos sobre a desilusão amorosa e as dificuldades materiais.
Aderindo à Nova Arcádia com o nome de Elmano Sadino, logo satirizou os confrades e afastou-se do grupo, continuando rebelde e obcecado pelo paralelismo biográfico com Camões.
Em 1797 foi preso ao divulgar o poema “Carta a Marília”, que começa com “Pavorosa ilusão de eternidade”. Acusado de impiedade e anti-monarquismo, passou meses nas masmorras da Inquisição, de onde saiu para o Convento dos Oratorianos conformando-se às convenções religiosas e morais da época. De volta à liberdade, Bocage levou uma vida regrada mas melancólica e de privações, traduzindo autores latinas e franceses.
Maior poeta da língua no século XVIII, Bocage é vítima até hoje de sua própria fama e dos preconceitos que despertou. Sonetista admirável e frequentemente à altura do seu ídolo Camões, excede-o aqui e ali no seu arrojo e no niilismo dos motivos: “Louca, cega, iludida humanidade” é algo já distante da atitude clássica e tem um último verso que chega a parecer existencialista: “Pasto da Morte, vítima do nada!”. Assim é também seu individualismo, seu conflito entre o amor físico e a morte, sua morbidez a atracção pelo horror, em meio a versos, às vezes, quase coloquiais.
Bocage publicou apenas as Rimas (1791/1804), em três volumes. Seus versos eróticos e burlescos circulam ainda hoje em edições clandestinas.
Morreu em Lisboa em 21 de Dezembro de 1805.
Alexandre O'Neill
Poeta português, descendente de irlandeses, Alexandre O'Neill nasceu no dia 19 de Dezembro de 1924 na cidade de Lisboa. Filho do bancário António Pereira de Eça O'Neill de Bulhões e de Maria da Glória Vahia de Castro O'Neill de Bulhões, dona de casa, Alexandre, depois de concluir os estudos do Liceu, ingressa na Escola Náutica de Lisboa (Curso de Pilotagem). Em 1944, após concluir o 1º ano, solicitou, junto à capitania de Lisboa, a cédula marítima, que lhe permitira exercer a função de piloto. O pedido foi-lhe negado por causa da sua miopia.
Trabalhou na Providência no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian e foi técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crónica semanal no Diário de Lisboa.
Datam do ano de 1947, duas cartas de O’Neill que demonstram o seu interesse pelo surrealismo, dizendo numa delas possuir os Manifestos de Breton e a Histoire du Surrealisme de M. Nadeau. Por volta de 1948, fundou com o poeta Cesariny, José Augusto França, António Pedro e Vespeira o Grupo Surrealista de Lisboa.
Em 1949 Alexandre O’Neill publicou “A Ampola Miraculosa”, constituída por 15 imagens, sem qualquer ligação e respectivas legendas, sem que entre imagem e legenda se estabelecesse um nexo lógico; o que torna altamente irónico o subtítulo da obra “romance”. Esta obra poderá ser considerada paradigmática do surrealismo português.
Foram lançados ainda nesse ano, os primeiros números dos Cadernos Surrealistas. Em Maio do mesmo ano, foi a vez do Grupo Surrealista Dissidente, organizar uma série de conferências com o título geral “O Surrealismo e o Seu Público”, em que António Maria Lisboa leu o que se pode considerar o primeiro manifesto surrealista português.
Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos (1950/52), que atingiram sobretudo José Augusto França, e após a morte de António Maria Lisboa, extinguiram-se os grupos surrealista, continuando todavia o surrealismo a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O’Neill, que se demarcar, já em 1951, no “Pequeno Aviso do Autor ao Leitor”, inserido em “Tempo de Fantasmas”.
Na segunda parte da obra, “Poemas” (1950/51), essa influência, embora ainda presente, é atenuada, como acontecerá em “No Reino da Dinamarca” (1958) e “Abandono Vigiado” (1960). A poesia de Alexandre O’Neill concilia uma atitude de vanguarda (surrealismo e experiências próximas do concretismo) – que se manifesta no carácter lúdico do seu jogo com palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do real, ou nos típicos “inventários” surrealistas – com a influência da tradição literária (de autores como Nicolau Tolentino e o abade de Jazente, por exemplo).
Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal e aos portugueses, destruindo a imagem de um proletário heróico criada pelo neo-realismo, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista no entanto sem dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor.
Alexandre O’Neill morre em 1986.

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