sexta-feira, julho 03, 2009

Envelhecimento


Envelhecer é amadurecer, aprender com os erros para depois ensinar e ajudar os mais novos. É aprender que o mundo é só uma escola por onde temos que passar, para a nossa aprendizagem de todos os dias.

Envelhecer é o único meio de viver muito tempo, é ser-se jovem com idade e mais maturidade. É passar da paixão para a compaixão. Ser-se velho é ter a sabedoria de uma vida e mostrá-la aos jovens para que eles fiquem cientes das dificuldades e saibam viver com mais saber, mais cuidado e mais esperança.

Este conto é sobre alguém muito especial.

Na sua Terra Natal (Póvoa de Varzim) era conhecido como o Juca – o filho da Tia Rosa “Frasca”. Menino protegido pelos irmãos mais velhos principalmente por uma irmã; criado com carinho por todos os irmãos, com muito amor dos pais, apesar de algumas dificuldades.

Ele era um jovem alegre, não havia nada que o fizesse entristecer, a não ser a tristeza de sua querida mãe. “Tinha uma namorada em várias vilas das redondezas” – dizia ele com um ar mais divertido e ao mesmo tempo saudoso daqueles tempos de juventude. Sempre a cantarolar, começou a trabalhar cedo (onze anos) como marçano. Foi para África (Luanda) trabalhar com vinte anos, cansado de ver a mãe chorar por não ter como comprar comida para dar aos filhos (irmãos mais novos do meu pai). “Fui tentar a sorte para ajudar a minha mãe e para ajudar também na criação dos meus irmãos mais novos” – disse. Embora tivesse sido uma partida muito dolorosa para todos, até mesmo porque quem ia para África era “condenado” e nunca mais voltava, aos poucos foi-se adaptando ao clima e ao modo de vida, trabalhando e conseguindo enviar algum dinheirito para a mãe.

Gostou tanto, que por lá ficou escolhendo e adoptando aquela terra como sua.

Quando eu o conheci, ou seja, quando eu comecei a tomar conhecimento do que me rodeava, ele já tinha cinquenta e seis anos, já tinha cabelos brancos. Era o meu velhote adorado, o velho pai que eu defendia quando alguém me dizia que ele era o meu avô.

Por ser a mais nova (a kassula), passava com ele algumas horas, depois do jantar, a cantar, aprendendo com ele as canções que ele cantava e que tinha o gosto de me ensinar e das quais ainda hoje me lembro, não só das canções mas também de muitas histórias que ele contava.

Infelizmente, como a situação em África mudou, com muita tristeza da parte dele, tivemos que vir para Portugal deixando para trás a terra amada e o desejo de lá ser sepultado.

Com tudo isso, com a lembrança cada vez mais marcante dos anos (cinquenta e cinco) passados em Angola e com as dificuldades que foram surgindo, a tristeza foi-se apoderando aos poucos da sua mente. Foram aparecendo os problemas de saúde, mas sempre com o carinho e a atenção de todos.

Quando começaram a chegar os netos, recuperou um pouco a alegria perdida. Já tinha algo com que se ocupar, com que se entreter. Ficava feliz quando lhe era pedida ajuda para olhar por algum dos netos ou para os adormecer. Dava a sensação de que voltava no tempo, ao lembrar-se dos momentos em que embalava os filhos na “sua” terra distante.

Mas a idade não perdoa e a saúde começava a falhar. Começaram a vir os sintomas da esclerose, o coração a ficar mais fraco. Um dia, já com oitenta e oito anos, iniciou a sua “grande viagem”.

Julgo tê-la feito com serenidade, feliz pelo carinho que a companheira e filhos sempre lhe dedicaram, mas, tenho a certeza, que com uma ponta de tristeza por não ter sido naquela terra que ele tinha escolhido.

Onde quer que ele se encontre, que Deus o ilumine.

sexta-feira, maio 15, 2009

Ensaio Sobre a Cegueira

Mais um filme de Fernando Meireles, desta vez baseado no romance de José Saramago “Ensaio sobre a Cegueira”.

Este filme começa quando a meio da confusão de trânsito um habitante oriental, ao querer arrancar com o carro nos semáforos, depara-se com uma estranha e repentina cegueira.

“Auxiliado” por um dos transeuntes, foi deixado à porta do prédio onde morava, tendo-lhe sido roubado o carro. Daí em diante novos casos da mesma doença vão surgindo, tornando-se assim num caso de doença contagiosa, levando o governo a tomar medidas. Medidas essas tomadas precipitadamente, quanto a mim, sem pensar nas consequências de tal resolução, uma vez que a cidade inteira foi tomada pela estranha doença.

Penso que podemos tirar deste filme algumas ilações.

Em primeiro lugar, a forma como as pessoas foram atiradas para aquele lugar – julgo ter sido um antigo manicómio – como se fossem bichos, sem sequer pensarem que todos eles eram cegos e que não se podiam valer por si sós.

Em segundo lugar, o que podemos assistir durante a estadia das pessoas naquele abrigo, foi a luta pela sobrevivência, a lei do mais “forte” e ao mesmo tempo, a usurpação dos bens uns dos outros, julgando-se com o poder na mão. Como diz o dito “em terra de cego, quem tem olho é rei”, podemos ver aqui dois tipos de visão: 1.ª – a visão calculista e usurpadora do cego de nascença que, habituado à cegueira, se aproveitou disso para “viver” à custa daqueles que perdendo a visão de repente, não sabiam por onde e como andar; 2.ª – a visão natural da única pessoa que não foi atingida pela doença. Essa personagem que, correndo o risco de cegar, não quis deixar o marido ao abandono e que foi os olhos de todos aqueles que não podendo contar com mais ninguém, estavam dispostos a tudo para sobreviver.

Por último, o Governo não pensou que, sendo uma doença altamente contagiosa, de nada valia o “encarceramento” dessas pessoas, porque de qualquer maneira todos iriam ficar contagiados, o que acabamos por ver quase no final. Uma cidade fantasma, cujos habitantes mais parecem uns zombies do que seres humanos, vagueando sem saberem para e por onde.

Passando da ficção para a realidade, penso que este filme também nos pode alertar para os perigos que todos nós corremos, nesta altura em que se luta contra os degelos e a poluição, uma luta pelo Ambiente. Na minha opinião não estamos livres de, de um momento para o outro, nos aparecer uma epidemia como a do filme. Aliás, já se vão vivendo momentos de susto!

Actualmente, na minha opinião, já se vive num mundo de cegos. Um mundo em que os governantes fazem o que querem, passam por cima de quem quer que seja, oferecem e prometem mundos e fundos para garantir o lugar. Digo que estamos num mundo de cegos, porque quando chegam as eleições é só oferecer uma colher de café, que toda a gente muda logo de opinião.

Voltando ao filme, gostei muito de ver. Estão de parabéns o autor do livro e o realizador do filme.

sexta-feira, maio 08, 2009

sexta-feira, abril 03, 2009

Palavra Favorita

Palavras! Todos as dizem mesmo sem saber o que elas significam. Dizem-nas, muitas vezes, porque as apanham com a convivência com outras pessoas. Com isso, essas mesmas palavras são tidas como “favoritas”.

Cresci a ouvir ao início de cada frase da minha mãe (pelo menos as frases que me eram dirigidas), a palavra NÃO. Ao longo da vida e mesmo já mulher, com lar constituído, fui ouvindo sempre: NÃO.

Por influência ou NÃO, essa palavra está frequentemente presente no meu dia-a-dia. Nas conversas banais com outras pessoas, ao lidar com os alunos, etc.

Gramaticalmente sabemos que é uma partícula negativa. Sendo negativa, porque a usamos tanto? Porque NÃO usar com mais frequência uma partícula afirmativa? Significa que NÃO estamos satisfeitos com o que a vida nos tem oferecido ou com o que procuramos!

Gostaria de dizer menos vezes NÃO. Mas NÃO consigo. Ela sai-me quase como que por instinto. Mesmo quando estamos a aconselhar alguém, temos sempre a tendência para dizer: “NÃO achas que deves…”, ou “acho que NÃO deves…”. Mesmo que esse conselho seja bom, que seja para melhorar alguma coisa, a palavra NÃO está sempre presente.

sábado, março 21, 2009

CESÁRIO VERDE



José Joaquim Cesário Verde nasceu em Lisboa em 25 de Fevereiro de 1855, faleceu no Lumiar em 19 de Julho de 1886.

Filho do lavrador e comerciante José Anastácio Verde e de Maria da Piedade dos Santos Verde, Cesário matriculou-se no Curso Superior de Letras em 1873, frequentando por apenas alguns meses o curso de Letras. Ali conheceu Silva Pinto, grande amigo pelo resto da vida. Dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais) e as actividades de comerciante, herdadas do pai.

Em 1877 lhe começou a dar sinais a tuberculose, doença que já lhe tirara o irmão e a irmã. Estas mortes servem de inspiração a um de seus principais poemas, Nós (1884).

Tenta curar-se da tuberculose, sem sucesso; vem a falecer no dia 19 de Julho de 1886. No ano seguinte Silva Pinto organiza O Livro de Cesário Verde (disponível ao público em 1901), compilação de sua poesia.

De poesia delicada, Cesário empregou técnicas impressionistas, com extrema sensibilidade ao retratar a Cidade e o Campo, seus cenários predilectos. Evitou o lirismo tradicional, expressando da forma mais natural possível.

Para Cesário Verde, ver é perceber o que se esconde na realidade, é captar as impressões que as coisas lhe deixam e, por isso, percepciona o real minuciosamente através dos sentidos e reflecte essa mesma impressão que o exterior deixa no interior do sujeito poético. Ou seja, o real exterior é apreendido pelo mundo interior que o interpreta e recria com grande nitidez, numa atitude de captação de real pelos sentidos, com predominância dos dados da visão: a cor, a luz, o recorte e o movimento.

A supremacia exercida pela cidade sobre o campo leva o poeta a tratar estes dois espaços em termos dicotómicos. O contacto com o campo na sua infância determina a visão que dele nos dá e a sua preferência. Ao contrário de outros poetas anteriores, o campo não tem um aspecto idílico, paradisíaco, bucólico, susceptível de devaneio poético, mas sim um espaço real, concreto, autêntico, que lhe confere liberdade. O campo é um espaço de vitalidade, alegria, beleza, vida saudável... Na cidade, o ambiente físico, cheio de contrastes, apresenta ruas macadamizadas/esburacadas, casas apalaçadas (habitadas pelos burgueses e pelos ociosos) quintalórios velhos, edifícios cinzentos e sujos... O ambiente humano é caracterizado pelos calceteiros, cuja coluna nunca se endireita, pelos padeiros cobertos de farinha, pelas vendedeiras enfezadas, pelas engomadeiras tísicas, pelas burguesinhas... É neste sentido que podemos reconhecer a capacidade de Cesário Verde em trazer para a poesia o real quotidiano do homem citadino.

Ao ler-se o poema “De Tarde”, pertencente a “Em Petiz”, é visível o tom irónico em relação aos citadinos, mas onde o tom eufórico também sobressai, ao percorrer os lugares campestres ao lado da sua “companheira”. A preferência do poeta pelo campo está expressa nos poemas “De Verão” e “Nós” (o mais longo), onde desaparecem a aspereza e a doença ligadas à vida citadina e surge o elogio ao ambiente campesino. A arte de Cesário Verde é, pois, reveladora de uma preocupação social e intervém criticamente. O campo oferece ao poeta uma lição de vida multifacetada (por exemplo, os camponeses são retratados no seu trabalho diário) que ele transmite com objectividade e realismo. Trata-se, pois, de uma visão concreta do campo e não da abstracção da Natureza.

A força inspiradora de Cesário é a terra-mãe, sendo nela que Cesário encontra os seus temas. É por isto que, habitualmente, se associa o poeta ao mito de Anteu.

sábado, fevereiro 28, 2009

Cidade de Deus









Desenvolva a seguinte reflexão sobre:

Ligação pobreza/crime (inevitabilidade ou não) a partir dos cursos de vida das duas personagens do filme: Buscapé e Dadinho.

MR.: Este filme mostra a realidade, ou um pouco da realidade, das favelas no Brasil. Na minha opinião é este tipo de filmes que fazem com que em Portugal se comecem a formar também gangs bairristas, só faltando os chamados “vigias” anunciando a chegada de alguém que não pertence ao bairro, se é que não existe já!

Mostra uma realidade de pobreza que muitas vezes está aliada ao crime e droga. A falta de condições sanitárias e infra-estruturas no bairro, longe de tudo, sem sequer um transporte público, uma escola, um posto de saúde. Na realidade sem nada, apenas um amontoado de casas sem as mínimas condições.

Falando das personagens Buscapé e Dadinho amigos de infância mas que tomam, mais tarde, rumos diferentes.

Buscapé: rapaz pobre, sensível, que cresceu num ambiente bastante violento, mas com um objectivo na vida: ser fotógrafo. Para alimentar esse sonho, continuou a estudar, arranjou um emprego, sem que nunca tivesse deixado de viver no bairro onde sempre viveu, lutando sempre para que não caísse no mundo do crime. Foi graças a uma máquina oferecida por Bené, sócio de Dadinho, que ele concretiza esse sonho, começando por fotografar precisamente o gang de Dadinho, mais tarde “Zé Pequeno”.

Dadinho: rapaz igualmente pobre, mas com objectivos totalmente diferentes. Seguindo o exemplo do gang “Trio Ternura”, rapidamente se tornou líder de um gang, optando pelo mundo do tráfego de droga. Com a força das armas, tomou num só dia o controlo de todos os postos de venda de droga daquele bairro tornando-se num bandido temido, mas respeitado pelos habitantes do bairro pela segurança que ele oferecia. Protegido por um exército de crianças e adolescentes, e com um arsenal de armas à disposição, não permitia (que) roubos dentro da favela.

Duas personagens pobres, que cresceram no mesmo bairro, ambos com sonhos, mas cada um com o seu objectivo: um enveredou pelo mundo do crime, o outro optou por uma profissão que lhe desse dinheiro honesto. Isto prova que nem sempre o crime, aliado à pobreza, é inevitável. Pode-se sempre levar uma honesta, íntegra, mesmo sendo pobre e muitas vezes com um pouco de luta consegue-se ter um futuro promissor.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Quadratura do Círculo

3 – Informe-se sobre o nome dado ao programa que acabou de ouvir.

MR.: É um programa no qual participam: o apresentador mais três convidados, de ideologias diferentes, para falarem de determinado tema actual. O nome do programa é derivado de uma expressão que se usa para expressar a impossibilidade de resolução de um problema geométrico.

4 – Reflicta sobre a utilidade deste tipo de programas televisivos.

MR.: Na minha opinião não servem para nada a não ser para ocupar o espaço (tempo) televisivo que está livre. Quatro pessoas reunidas à volta de uma mesa durante algum tempo, a falarem sobre um tema da actualidade, mas no final não chegam a uma conclusão ou resolução.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Verbete de Palavra inventada, não dicionarizada

Acas.m. 1.arco; 2.roda pequena, feita em ferro ou arame grosso na qual se prende um freio do mesmo material, que serve para as crianças brincarem; 3.interjeição africana.

Ão s.m. 1.homem; 2.ser masculino na fase adulta; 3.género oposto de mulher.

Ucas. 1.Ruca; 2.diminutivo de Rui; 3.nome próprio na língua infantil.

Frase exemplificativa em que se empregam as três palavras:

O Uca é um ão a jogar o aca. (O Ruca é um homem a jogar ao arco).

domingo, novembro 16, 2008

The Constante Gardner


Este filme, mostra a pura realidade do mundo em que vivemos.

Haverá sempre o contraste entre os ricos e os pobres nas grandes cidades, nas grandes capitais.

Haverá sempre dor, sofrimento, injustiça para o lado do mais fraco; este, infelizmente é e será sempre o povo africano.

Haverá sempre indústrias a quererem testar os seus produtos, alegando terem o medicamento certo para o mal que os afecta, e a troco, muitas vezes, de um prato de comida, coitados, fazem tudo pensando que será para o bem deles.

Só vivendo de perto com esse povo tão sofrido, se pode valorizar o que passam. Enquanto os todo-poderosos vivem à grande, sendo que a única preocupação é saber quantos milhões aquele produto vai render, independentemente se causa mortes ou não.

Esta é a realidade que eu vi neste filme, vivendo de perto como eu já vivi o drama destas pessoas.



sábado, novembro 08, 2008







Literatura - Século XIX

A actividade literária do século XIX é verdadeiramente impressionante, não só pela diversidade ou pela qualidade como também pela quantidade! Aqui, novamente a disputa entre o Romantismo e o Realismo, entre o antigo e o novo, entre a forma e o conteúdo.

A literatura nesta época é caracterizada por uma maior liberdade na inspiração e uma maior consciência científica na reflexão. Estes dois caracteres, sucedendo-se em preponderância, subdividem este movimento em dois períodos: o primeiro que se pode chamar romântico, o segundo que se pode designar como crítico (realismo, naturalismo). Ambos, em Portugal como na Europa, representam uma regressão à Natureza: no primeiro período sob uma forma tumultuária e inconsciente, no segundo sob uma forma reflexa e filosófica. Daí a superioridade da epopeia e do drama no primeiro, e do romance e da crítica no segundo.

O Romantismo português está sobretudo ligado a Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Feliciano de Castilho. Obras como: Frei Luís de Sousa e as Folhas Caídas são tipicamente românticas.

O Realismo está relacionado com Antero de Quental, Eça de Queirós e Oliveira Martins (Geração de 70). Esta geração agitou a literatura portuguesa e de modo mais amplo, a própria cultura portuguesa na célebre Questão Coimbrã. Portugal Contemporâneo (Oliveira Martins), Os Maias (Eça) e Odes Modernas (Antero de Quental) são os principais exemplos deste movimento.


Pintura - Século XIX

Ao nível da pintura, evoluiu-se do Romantismo para o Realismo (opostos). Na segunda metade do século, apareceu o Impressionismo.

Assim, passou-se de um estilo no qual a forma era o mais importante (muitas vezes falseava-se o conteúdo para obter mais bonitas formas) – Romantismo – para um estilo onde o conteúdo passou a ter maior preponderância (tudo passou a ser retratado com maior rigor, eventualmente, cientifico) – Realismo. As principais figuras da pintura desta época são ainda hoje muito reconhecidas por todos. A forma mais extrema do Realismo é o Naturalismo (retrato exacto da Natureza).

Conto: A Loura Esperta

Menina Vilaça de apelido, Luísa, assim se chamava a bela loura de cerca de vinte anos, vivia com sua mãe, igualmente bela mas de cabelo preto e anelado, numa casa cuja vidraça tinha uma cortina de cassa bordada.

Luísa, tinha pele branca e ao mesmo tempo rosada fazendo lembrar velhas porcelanas; ar fresco e fino, como se se tratasse de uma medalha antiga (diriam velhos poetas pitorescos); conjunto de “virtudes” que chamavam a atenção de qualquer rapaz da época.

Esta bela loura que só gostava de usar coisas finas a condizer com o seu ar, escondia atrás de toda essa aparência, algo que só mais tarde, aquele por quem se apaixonou viria a descobrir.

Pois é, foi assim que o otário do Macário caiu que nem um patinho e quase se “enforcou”, coitado. Também, quem não cairia? Ver uma bela loura encostada ao peitoril da varanda, com um vestido de cassa com pintas azuis, de lenço de cambraia trespassado sobre o peito, as mangas pendidas com rendas, de leque na mão pequena, meiga e amorosa, com unhas polidas como marfim… Bem, a questão do leque deixou o pobre do rapaz intrigado e ao mesmo tempo curioso!

É que o leque era muito rico e fino! Era uma ventarola chinesa, redonda, de seda branca com dragões escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e trémula como uma penugem, e o cabo de marfim, donde pendiam duas borlas de fio de ouro com incrustações de nácar à maneira persa! Um leque desses, maravilhoso, naquele tempo não era para qualquer uma!

Foi assim que a bela loura chamou a atenção do rapaz otário, desculpem, Macário. Mas ela também reparou nele, a safada! E como o tinha já debaixo de olho, vai com a mãe fazer compras. Mas sem dinheiro, claro! Ainda por cima comprar casimiras pretas! Estão a ver a fisgada, não estão? Vão ao armazém comprar um tecido que não vai ser útil, só para ela o ver de perto, falar com ele. Possivelmente já devia saber quem era ele! Ela era loura, mas não era burra! Com aquele ar simples, indiferente…hum… está-se mesmo a ver o que ela queria! Fisgá-lo, lógico!

Coitado do Macário! Ficou louquinho por ela; tão louco que se zangou com o tio por causa da loura! Mas ainda bem que não casou com ela! Porque, vejam lá! num dia em que ele a leva às compras para o casamento, enquanto a mãe escolhe o tecido para o vestido, ela, como quem não quer a coisa, leva-o para a ourivesaria. Ele aproveitou para comprar-lhe um anel de noivado. Mas ela que já tinha pensado na marosca, ia examinando as montras de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de camafeus, os anéis de armas, as finas alianças frágeis como o amor (amor, pois sim!).

A safada, enquanto o caixeiro mostrava anéis a Macário, ia experimentando, dizendo que não a uns e outros, porque uns eram grandes, outros pequenos, outros ainda eram feios. No meio da confusão, mas debaixo do olho do caixeiro (ele não era parvo), com a mão de cera, com veias docemente azuladas e dedos finos e amorosos (aproveitou-se disso!), toca de tirar um anel e escondeu-o. Mas como o caixeiro era de Olhão, reparou e não deixou que saíssem da loja sem que o pagassem. Claro, eu faria o mesmo! Só assim o Macário ficou a saber quem era a noivinha, ou seja, uma ladra. Era assim que ela conseguia as coisas caras.

sábado, novembro 01, 2008

HISTORIA DE VIDA

Nasci na Vila de Ambriz, em Angola, em Março de 1956. Aos 10 meses os meus pais foram para Luanda, onde vivi até aos 19 anos.

Fui baptizada com 5 anos numa igreja muito bonita: Igreja Nossa Senhora da Nazaré, no dia 10 de Maio.

Com 6 anos entrei para a escola.

Quando tinha 8 anos, a caminho da Vila de Caxito, onde o meu pai trabalhava como gerente duma firma (e onde eu e os meus irmãos passávamos férias), os meus pais tiveram um acidente que quase lhes tirou a vida. Nesse acidente a minha mãe perdeu o antebraço e quase perdeu a vista.

Completei o ensino primário com 9 anos. Nesse ano lectivo fiz a 1.ª comunhão na Igreja da Sagrada Família, com um vestido que já não pôde ser feito pela minha mãe pelos motivos já referidos.

Entrei para o 1.º ciclo com 9 anos e aí começou a minha derradeira caminhada nos estudos, pois cada ano escolar era feito em dois. Não por burrice, mas por preguiça de estudar o que levou também ao desinteresse pelos estudos. Até que, por volta dos meus 15, 16 anos, não podendo já matricular-me de dia no liceu, mas com possibilidade de ir para uma escola técnica por ter passado no exame de admissão feito após a 4.ª classe, iniciei os estudos na Escola Comercial no Curso Geral de Administração e Comércio. Pelas bases que eu levava – porque fica sempre alguma coisa guardada ou porque talvez fosse já vocação para a área – finalmente comecei a ter interesse pelos estudos e tinha-os mesmo encarreirados.

Mas, infelizmente para mim, deu-se a Revolução de Abril. O que para mim estava a começar a ser a sério e bonito, de repente... Foi como se estivesse a meio duma construção com peças de dominó e com um simples gesto viesse abaixo tudo o que já tinha construído.

Tivemos que deixar a casa – construída com muito sacrifício 50 anos depois de o meu pai ter ido para Angola – pois o meu pai esteve à morte por ter sido atacado perto de casa, e um ano depois viemos para Portugal.

Vi-me num país estranho e com os meus pais a viver com dificuldades, o interesse pelos estudos era nenhum, para além de não ter encontrado também quem me indicasse uma escola para que eu pudesse continuar a estudar.

Por volta de 1977/78 surgiu uma oportunidade de trabalho; numa pastelaria no Terminal do Rossio – Pastelaria Kinaxixe. Como iria trabalhar por turnos e com receio que algo acontecesse à única filha que nunca saiu de casa a não ser para estudar, e embora tivesse já 21 anos, foi com muito custo que o meu pai deu autorização para trabalhar. Foi o meu 1.º emprego. Uma boa experiência para começo de vida, por lidar com o público. Trabalhei 2 anos, ao fim dos quais me despedi, porque infelizmente sou um bocado temperamental e não aceito determinadas coisas. Entretanto o meu pai ofereceu-me o curso de dactilografia. Depois, através de um anúncio de jornal, arranjei trabalho numa Escola de Dactilografia onde exercia as funções de dactilógrafa, porque a Escola também recebia trabalhos para serem dactilografados.

Em Junho de 1981 conheci o meu companheiro e mais uma vez a minha vida tomou outro rumo. Juntos os trapinhos, poucos meses depois vi o meu sonho de ser mãe a começar a concretizar-se.

Quando tinha 8 meses de gravidez, o meu marido foi trabalhar para o Sudão, como chefe de armazéns duma fábrica de açúcar – Kenana Sugar & Co. – e por isso não assistiu o nascimento da nossa filha mais velha. Fomos ter com ele, tinha ela 5 meses. Vivi momentos muito bons e felizes durante os 6 meses que lá estivemos – eu e filha. Vivíamos numa zona quase desértica, em que só havia vegetação graças aos sistemas de canalização feitos para que houvesse um modo de a fábrica funcionar e as condições mínimas de vida dos funcionários (que na maioria eram cooperantes de diversos países). Apesar de a fábrica ser a 3.ª maior do mundo – na altura era, e com isso trazia uma das riquezas do país: o açúcar – o povo continuava a ser pobre.

O povo sudanês é um povo muito ligado às tradições. A mulher continua a ser muito subjugada, embora haja mulheres que conseguem atingir os seus objectivos evoluindo profissionalmente, ainda assim com muitas limitações. Na classe mais baixa, a chamada classe pobre, a mulher é limitada à casa e ao cultivo ou outros trabalhos mais forçados. Na zona onde estive, não se via uma mulher a trabalhar em casas particulares, isso era para o homem.

Findo o contrato, regressámos a Portugal.

Em finais de 1985 o meu marido foi outra vez para fora. Desta vez para Maputo, Moçambique, trabalhar como monitor numa firma portuguesa – Entreposto.

Moçambique, terra boa, de povo acolhedor, humilde, com atitudes e maneiras bem tradicionais, muito próprias! Povo alegre; podemos comparar um pouco com o povo brasileiro; podem ter pouco que comer, mas havendo música, fazem uma festa (um dos pontos que comoveu o já falecido Papa João Paulo II aquando da sua visita a Moçambique). Alguns meses depois de estar em Maputo, engravidei da minha filha mais nova. Como não estava a passar bem nos primeiros meses, receoso que algo corresse mal devido à falta de condições de uma maneira geral no sector hospitalar, o meu marido mandou-me para Portugal. Aqui estive até a minha filha completar os 3 meses de idade, altura em que regresso a Moçambique. Pouco tempo depois o meu marido foi transferido para o norte – Cidade de Nampula. Mais uma terra para conhecer, com muitas dificuldades, muita falta de água e cortes diários de energia, mas com o tempo, a adaptação foi boa; fiz boas amizades. Dois anos depois, regressámos a Maputo porque era altura da filha mais velha entrar para a escola e só aí é que havia escola portuguesa. Foi mais ou menos nessa altura que através do meu marido, entrei para a Doutrina Espírita. Mais dois anos e voltámos para Portugal e para ficar. Com tristeza deixei para trás amizades e aquela terra de bom clima e de povo humilde para onde voltaria hoje mesmo se fosse possível.

Pouco tempo depois, as dificuldades surgiram. Sem trabalho, com duas filhas para criar, uma delas na escola... Por indicação duma pessoa amiga fui inscrever-me na Cablesa – fábrica de cablagem de automóvel – onde trabalhei a soldar terminais nos fios eléctricos, durante 6 meses. Ao fim desse tempo, recebi a carta de despedimento. Foi uma experiência muito boa, que me permitiu compreender o trabalho de fábrica. Durante 1 ano e meio estive a receber do desemprego e a cuidar das filhas auxiliando-as nos trabalhos escolares. Quando o desemprego acabou e como o ordenado do meu marido era baixo, através do padre da paróquia de Mira Sintra, comecei a trabalhar a horas numa casa particular. Depois arranjaram-me mais três casas. Entretanto surgiu-me a oportunidade de trabalho na escola, onde estou até agora exercendo as funções de Auxiliar de Acção Educativa, mantendo uma das casas só para ir passar a ferro.

Trabalhar como auxiliar numa escola, é algo que nos enriquece; passamos a conhecer o mundo do outro lado do estudante. O lado que enquanto estudante eu não conhecia. No meu tempo, encontrávamos as salas limpas, mas quase não víamos (eu pelo menos) o pessoal auxiliar. É também conhecermos um pouco melhor aquele lado ao qual não tínhamos acesso, que é o lado dos professores. Lidamos mais directamente com eles, ganhando muitas vezes amizade com alguns. É saber lidar com os alunos, ficar a conhecer o verso da medalha. É ficar a conhecer, muitas vezes, os problemas pelos quais muitos dos alunos passam em casa; começarmos a compreender um pouco o porquê das dificuldades que muitos alunos têm na aprendizagem, no lidar e no conviver com os outros, no relacionamento com os colegas e até mesmo com os professores e auxiliares.

Em 2002, surgiu a oportunidade de adquirir as competências do nono ano através do RVCC, inscrevi-me e lá fui, aliás esta história de vida foi começada para o portefólio do nono ano.

Gostei muito, aprendi alguma coisa, conheci gente nova, tive a oportunidade de fazer um pequeno aprofundamento de TIC, o que me foi muito útil para que eu pudesse passar os meus trabalhos a computador.

Durante estes anos de trabalho nesta escola, tenho feito algumas acções de formação, como por exemplo: Escola Promotora de Saúde, Higiene, Segurança e Saúde nas Escolas, Comunicação e Relações Interpessoais, Curso de Computadores: Iniciação, Aprofundamento e Internet.

Ao fim de 10 anos a trabalhar na que é hoje a sede do agrupamento D. Domingos Jardo, fui posta a trabalhar numa das escolas do 1.º ciclo que a ele estão agregadas: a EB1 da Baratã. É uma escola pequenina, com uma única turma de alunos dos quatro anos lectivos, apesar de estar no meio de habitações grandes e quintas, é uma escola isolada, muito fria no Inverno devido a tanto arvoredo que tem à volta.

No início foi-me muito difícil adaptar-me à mudança. Habituada ao movimento duma escola grande, a ter colegas com quem conversar à hora do almoço, a ter uma colega com quem desabafar um ou outro problema, de repente vi-me sozinha, sem ninguém com quem falar a não ser a professora. Com o tempo, fui-me habituando e embora ainda me custe ir para aquele fim do mundo (como eu costumo dizer), já estou mais ambientada, tenho um bom relacionamento com a professora e com os meninos. Meninos muito diferentes dos da outra escola; com muito mais problemas em todos os aspectos. Não fosse a força de vontade da professora e o interesse por eles, muitos não iam à escola.

Em 2007, através de uma colega muito querida, soube destes Cursos EFA. Inscrevi-me, e aqui estou a tentar fazer o meu 12.º ano. Tem sido uma experiência muito boa; a turma não poderia ser melhor; parece que foi escolhida a dedo; os professores também. Tenho tido algumas dificuldades, mas com um pouco de ajuda deste ou daquele colega, dos professores, da professora com quem trabalho e das minhas filhas, vou conseguindo ir em frente. Tenho tido a oportunidade de conhecer assuntos dos quais nunca pensei vir a saber, porque nunca me interessou; aprendendo coisas de que não tinha conhecimento; e espero vir a conseguir o objectivo a que me propus.